Rica e Infeliz

Por Luiz Carlos Prates

“Só se leva desta vida a vida que a gente leva”. Ouvi muito essa frase quando era guri, muito. Grosso modo, a frase não pode ser contestada. E há outra frase que diz que “O caixão funerário não tem gavetas, nada se leva nele…”

Digo isso, leitora, para lembrar que muitas pessoas passam pela vida juntando objetos, símbolos, como se eles justificassem a vida. Claro que viver desse modo contradita o primeiro ditado, aquele que diz que desta vida só se leva a vida que a gente leva.

Venho ao assunto depois de acabar de ler a seguinte manchete: – “Leilão de joias de Elizabeth Taylor”.

A notícia contava sobre um lote com 80 peças de joias da imensa coleção de preciosidades da famosa atriz. Avaliação inicial: R$ 210 milhões. Elizabeth Taylor, bonita como a lua, não viveu, apenas passou pela vida juntando joias que ela “tirava” dos maridos, foram oito…

A coleção da atriz não se pode encontrar nem mesmo nas mais famosas e ricas joalherias do mundo, era algo singular pela raridade, pela diversidade e pelos artísticos e valores das peças.

Valeu a pena? Um colar caríssimo no pescoço de uma mulher não a garante feliz, o colar é apenas um adereço. A felicidade está na alma, no coração. Mas o ser humano é imensamente estúpido, prende-se às mundanidades materiais imaginando que por elas vai ser feliz. Se fosse assim, Elizabeth Taylor teria sido a mais feliz das mulheres, ou quase isso.

O mundo, os nossos amigos, nós mesmos estamos, mais das vezes, vivendo o equívoco de buscar nas farturas materiais a felicidade que só pode ser encontrada na simplicidade e no desapego à matéria.

Se a Elizabeth Taylor tivesse passado pela vida usando um anelzinho de camelô talvez fosse muito mais feliz. Ou feliz, o que ela me pareceu nunca ter sido.

VIDA
Elizabeth Taylor enquanto viveu conheceu fama, riqueza e especiais distinções. Mas foi infeliz. Quem casa oito vezes não conheceu a felicidade, não a felicidade do tempo, do conhecimento de outra pessoa, do olhar juntos o mesmo horizonte, o horizonte dos sonhos, dos planos. Elizabeth escondeu-se nas joias para encobrir sua pobreza existencial. Quantas iguais a ela, talvez até lendo agora estas linhas…?

VÍCIOS
O leilão de joias da Elizabeth Taylor fez-me voltar a lembrar dela. E de outras iguais a ela. Bonita, muito bonita, o que para uma mulher é quase tudo, mas pode ser quase nada. Foi viciada em drogas, bebeu demais. As drogas escondem fraquezas, medos e infelicidades. As drogas são sintomas, jamais causa.

SER
É o “ser” que nos faz felizes. O “ter” nos pode em alguns aspectos anestesiar com as banalidades e os supérfluos da vida. Mas quando fechamos a porta do quarto e a sós nos miramos no espelho da alma, sentimos um imenso vazio quando só o que vemos é o ter, e quase nada do ser. Ser enriquece mais que ter.

 

Luiz Carlos Prates, é psicólogo por opção e jornalista por vocação. Possui em sua bagagem, 50 anos de carreira, dos quais completa em 2011, 30 anos de mídia catarinense.

Joia coração

3 comentários em “Rica e Infeliz”

  1. Não que riqueza traga infelicidade, mas o apego às coisas materiais sim. E o apego à imagem também (parecer “rico, bonito, successful e feliz”).

  2. O mais difícil é não ser contagiado com esse “vírus” do ter. Mesmo eu que me considero até desapegado com coisas materias já me peguei diversas vezes pensando em coisas que eu queria ter e que se as tivesse seria mais feliz. 
    E se para nós às vezes é difícil escapar desse “vírus” imagina os nossos filhos.
    Quem tem filhos talvez já tenha pensado no assunto como eu já o fiz.
    As vezes fico pensando como fazer para educar seu filho de forma que ele entenda isso?

    “Não eduque o seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz.  Assim, ele saberá o valor das coisas, não o seu preço”

    A frase acima de Max Gehringer, diz mais ou menos isso. A questão é como educa-los para ser felizes?

  3. 27 de abril de 2012

    Em relação ao texto, nao vamos esquecer que ela trabalhou desde criança, sempre foi reconhecida nao so pela beleza como talento tambem.
    Vamos lembrar que desde 1985 esteve batalhando pela cura da aids, em 1991 criou a Elisabeth Taylor Aids Foudation, onde a renda deste leilao se destinou a pesquisa desta doença.

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