O mundo no caleidoscópio de um maluco

Por Sérgio G. Kiss

Neste sábado, e por motivos de trabalho, saí meio que as pressas devido ao horário por chegar em Santos, antes do comércio fechar para o fim de semana, fui obrigado a dirigir de forma segura porem rápida e tensa; Uma vez resolvido meu problema, programei-me para fazer a volta com toda calma e tranquilidade, dirigindo despreocupadamente e ouvindo boas musicas, no caso meu daquele momento, Carpenters, que eu gosto muitíssimo.

Fiz o caminho que passa pela orla da praia, com aquele calçadão maravilhoso, com jardins tão bem cuidados e floridos de cores diversas, com árvores fazendo sombras sobre os inúmeros bancos espalhados pelo local, ao fundo um mar de azul inebriante, repleto de embarcações de todos os tamanhos; O dia estava lindo com um sol claro e ameno, uma brisa fresca que soprava com suave maresia, e as pessoas… ah, as pessoas!

Quanta gente havia lá…! Algumas fazendo seus exercícios, outras simplesmente passeando, havia ciclistas, pedestres, jovens, crianças e adultos, e toda aquela cena foi rapidamente adquirindo uma qualidade diferente, um sentimento muito forte me foi invadindo o espírito, e sem saber como ou porque, uma paz, somada a uma alegria, por simplesmente estar vivo, por existir, por estar ali.

Que coisa impressionante enxergar de verdade as coisas, ao invés de apenas ver, de sentir com um sentimento tão forte que chega a doer no peito; Lembrei-me de alguns poetas lidos no passado, que diziam que a felicidade pode ser tamanha que incomoda, que doí, e percebi que é verdade, eles estavam certos, eles deviam ter sentido algo parecido a isso.

Vi um casal, passeando tranquilamente pela calçada larga, conversando e sorrindo, empurrando um carrinho de bebê, e a vontade que senti foi de parar o carro ali mesmo no meio da rua, e correr em direção a eles e abraça-los, e dizer-lhes o quão linda era aquela visão, o quanto eles eram privilegiados por existirem, se conhecerem, e terem a oportunidade de trazer ao mundo outro ser humano.

Naquele momento o sentimento era tão forte que eu abraçaria as arvores, as placas de transito, as pessoas e os postes, porque tudo me parecia imensamente familiar e pessoal, sentia Deus em tudo, e via o Deus do mundo no mundo de Deus, em todas as coisas sem distinção.

Pensei no que aquele casal pensaria se eu o fizesse? Como eles iriam lidar com uma coisa dessas? Compreenderiam?

Não creio; No entanto meus sentimentos eram os mais sublimes e belos que eu já tive oportunidade de sentir, mas… sem poder dividi-los com ninguém, como agora, ao escrever e pensar se alguém está realmente entendendo o que quero dizer? Será que outras pessoas já sentiram essas coisas, e com essa intensidade, ou estarei maluco realmente por senti-las?

O transito segue lento, o meu estado de espírito segue inalterado, e em tudo vejo Deus e a beleza da vida, elevo o pensamento em gratidão ao Supremo Arquiteto deste universo, e enquanto viajo nos sentimentos vejo adiante uma linda moça que vem correndo fazendo exercícios, com fones de ouvidos… O que será que está ouvindo? O que estaria pensando?

É um universo particular, e vejo nela uma beleza indescritível, sem nenhuma infiltração de pensamentos menos dignos, vejo nela a beleza do ser humano, das formas de nossos corpos, da beleza dos movimentos, da possibilidade de estar ali existindo, sendo, e me pego olhando com a mesma admiração para os homens, crianças e idosos; Tudo é tão perfeito, tudo é tão belo que incomoda, e o coração parece querer romper do peito pois não cabe em si.

Vou seguindo assim inebriado até chegar a fila para a balsa, a fila esta parada e logo vem um garoto com um tabuleiro vendendo salgadinhos, e aquilo me comove, pergunto a ele quanto ele ganha do que vende. E ele me diz com suas palavras, que muito pouco, pois o lucro mesmo é do seu “patrão”; Dou-lhe algum dinheiro mas não pego nada do tabuleiro, e lhe digo: coloque esse dinheiro em outro bolso, ele é para você, não para o seu patrão, Deus te abençoe.

O garoto assume uma fisionomia diferente, dividida entre a alegria e a desconfiança, me olha como quem deseja ardentemente entender o que esta acontecendo, parece querer sair correndo dali antes que eu mude de ideia, ao mesmo tempo em que deseja ficar perto de mim, para ouvir alguma explicação que deve ser tão necessária para ele poder encaixar em seu mundo particular, de modo a tudo isso lhe fazer algum sentido; E assim, dividido entre o que desejaria e o dever das vendas que lhe chama, afasta-se em completo silêncio, com passos incertos e hesitantes, dividido entre a emoção e a razão, em direção ao carro de traz para tentar mais uma venda. Eu o observo pelo retrovisor lateral, e ele, ainda andando lento, olha a todo momento para traz na minha direção. Eu penso: “Meu Deus, o que estamos fazendo uns aos outros, para que uma atitude de carinho com o semelhante levante tamanha perplexidade?”

Adiante um pouco, um homem está sentado em cima do muro que separa a calçada do braço de mar à minha esquerda, ele tem duas muletas encostadas ao seu lado, e ao olha-lo, novamente aquele desejo de deixar o carro e abraça-lo me invade, enquanto imagino… e agora sei que vão mesmo pensar em me internar… que experiência incrivelmente enriquecedora deve ser viver com uma dificuldade como essa, talvez o que esse homem irá aprender em uma única vida, a respeito de resignação, superação de dificuldades e etc., eu precise de séculos para aprender.

E se naquele momento eu realmente o fosse abraçar, eu lhe diria ao ouvido… “Eu te felicito irmão, porque nunca estivestes tão saudável, como agora que teu corpo esta doente”. Pensei, achando que já perdia a razão, no que ele faria se assim eu o fizesse? Será que ele entenderia o que eu estaria dizendo? Duvido…

Lembrei-me de uma ocasião há tempos atrás em que eu estava na calçada em frente ao meu trabalho, descansando um pouco do dia corrido, e olhando o movimento na avenida, quando um homem maltrapilho que eu julguei ser um mendigo, simplesmente estancou a minha frente e me cumprimentou efusivamente, com uma alegria completamente destoante de sua aparência, e me disse coisas que eu julguei serem de quem estava fora de sua razão; E pensei que se eu fizesse o que desejava ali, seria encarado da mesma maneira pelo homem de muletas, e lembrando-me daquela ocasião com o homem mal vestido na calçada, pensei: “Quem era de fato o mendigo, o homem de roupas sujas, alegre e feliz, falando coisas que eu não entendia e sentindo o que eu não sentia, ou eu com minha cara amarrada e cansada do momento?”

O transito para a ponte se abriu e eu segui, pensando que deveria brigar com alguém pela janela do carro, comer um bife mal passado, sei lá, qualquer coisa para “aterrar” um pouco e voltar ao estado normal, porque ninguém podia viver assim, sentindo e pensando aquelas coisas, neste nosso mundo caótico de gente que pensa que é sensata e arrazoada, acreditei naquele momento que os loucos são só pessoas que não conseguem se fazer entender, nada mais.

Bem meu irmão ou irmã de jornada, nestes escritos não trago nenhuma grande lição, não posso te dizer como viver a tua vida porque as vezes me questiono se estou realmente certo na direção da minha, tão pouco posso dizer o que sentir ou pensar, mesmo porque as vezes penso e sinto coisas como estas que estão aqui expostas, e que a mim mesmo parecem loucuras, doces loucuras.

Sei que alguns entenderão e até sentirão algo diferente ao ler estas linhas, mas para aqueles que pensam diferente disso, sempre sobra uma possibilidade, a de encarar tudo isso com a visão de um maluco, pelo fantástico caleidoscópio da vida, neste mundo de Deus.

Sérgio G. Kiss (*)

(*) Sérgio participa da Associação Espírita Casa do Caminho, em Peruíbe-SP. Gentilmente nos autorizou a compartilhar o seu texto inspirado.

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