O orgulho é inimigo do amor

Por Samantha Sabel

“O orgulho é inimigo do amor.”

Com essa frase tintinando em minha mente, abri os olhos pela manhã com a sensação de excesso de energia acumulado nas regiões da garganta e dos olhos. Ao mesmo tempo, na altura do peito, uma sensação de frio e de vazio.

Atenta, passei os minutos seguintes tentando identificar a possível relação disso com os sonhos da noite, ou com as experiências dos dias imediatamente anteriores. Não demorei a perceber que o recado era para maneirar naquela nada louvável mania de estar certa, de seguir energicamente as linhas de argumentos que me parecem racionais sem muita consideração pela maneira como o outro se sente ao interagir comigo quando estou nesse modo.

Sim, o tema do dia é o orgulho. O orgulho é tentação à qual frequentemente cedo, e à qual frequentemente vejo tantos cederem. Nas famílias, no trabalho, nos relacionamentos, no trânsito, na frente do espelho.

É claro: o orgulho é inimigo do amor! É disso que falam as autoridades em relacionamento quando elencam o desdém – orgulho revestido de ironia ferina – como o pior veneno que pode rolar numa interação afetiva. Em outras palavras, se você vem praticando desdém – explícito ou como postura mental – para com seu parceiro(a), pode escrever que está colocando o relacionamento na estrada para a ruína… pois ninguém que goza de boa saúde emocional aceita ou gosta de ser desprezado.

O orgulhoso é como alguém que se senta no topo de uma montanha e, percebendo o seu entorno como inferior a si mesmo, não se dá conta da aridez da região que escolheu habitar. Suas atitudes ríspidas, arrogantes e impacientes afastam os outros do seu convívio, agravando cada vez mais a sua sensação de isolamento. O frio que escolheu como habitat começa a ressecar e congelar a própria pele, e muitas vezes a altura a que subiu foi tamanha que o caminho de volta ao vale quente do amor demora demais para poder ser percorrido.

Quase onipresente nos corações humanos, não é à toa que o orgulho figura na lista dos sete pecados capitais. Foi uma das últimas tentações do Buda antes de poder ser iluminado, e também uma das tentações oferecidas a Jesus no deserto. É o orgulho também aquilo que incha o “homem rico que não entra na estreita porta do reino dos céus”.

O intelectual é alguém que está em particular perigo de ceder à tentação do orgulho. Seus esforços para acumular conhecimento o levam para mais perto da ilusão de possuir uma bagagem que o separa qualitativamente dos demais. A mente, força yang, é estimulada pelo confronto, e se não for equilibrada com o yin do coração – a capacidade de sentir com o outro, a compaixão – facilmente se desequilibrará em orgulho e agressividade. Não se trata, é claro, de anular o potencial divinamente concedido da inteligência, mas de alimentá-la de forma proporcional às outras forças vitais, as do coração e da vontade, buscando uma manifestação pessoal mais equilibrada e saudável.

É divertido observar as situações em que o orgulho é quebrado. O amor é por excelência o antídoto contra o orgulho – ele derruba, aliás, todas as ilusões. Quando um doutor arrogante que só pensava na carreira por exemplo for trocar pela primeira vez a fraldinha cheia de cocô do seu filho, ali talvez ele começará a reorganizar sua escala de valores, e é bem provável que ao longo do convívio com a criança o seu próprio ego irá ficando cada vez mais para trás na sua fila de prioridades. O mesmo pode acontecer com alguém que perde por qualquer motivo um talento, uma posição social ou o prestígio que tinha. A bela atriz que envelhece, o atleta que se acidenta, o milionário que perde a fortuna, o senador que não se reelege, o sujeito de destaque, bem versado, que precisou engatinhar novamente quando imigrou para um país estrangeiro.

Circulam na internet algumas boas ideias sobre como domar a fera do orgulho. A devoção a algo melhor do que nós mesmos. Elogiar as qualidades daquele que percebemos como “inimigo” enquanto nos lembramos diligentemente dos nossos próprios defeitos. A lembrança da condição de igualdade que compartilhamos com outros seres vivos – a fragilidade do corpo e a morte física nos igualam a todos, assim como a imortalidade da consciência e os potenciais infinitos. A atitude interna de equanimidade. A real noção de nosso pequeno tamanho no grande esquema da Criação – ou como disse o filósofo, o ridículo de quando uma partícula de poeira cósmica pergunta altivamente se “você sabe com quem está falando?”. A lembrança de que sozinhos não somos capazes de ir muito longe. A lembrança de que já erramos muitas vezes, mesmo quando nos achávamos tão certos do que fazíamos. A lembrança de que ao provocar sofrimento e animosidade no outro com nossa arrogância, estamos caminhando rumo ao nosso próprio sofrimento. O respeito à multiplicidade de caminhos que levam à evolução. O saber apenas que nada sabe.

O orgulho é inimigo do amor. E por consequência, inimigo também da possibilidade de ser realmente feliz.

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