Apertando o grande botão reiniciar

Por John Gottman. Tradução do original Hitting the Big Reset Button

Os feriados de fim de ano são sempre tão estressantes. Por que isso? E o que pode ser feito para aliviar as grandes tensões geradas pelas festas de fim de ano? Eu vou lhe dizer.

O projeto de cada temporada de festas tem a ver com o resurgimento planejado da esperança. As festas de fim de ano tentam fazê-lo reconsiderar a esperança e dar a ela uma nova chance.

Algumas esperanças são, na verdade, propositadamente construídas para a temporada de férias. A esperança de ser capaz de coroar o amor acima do ódio, de fazer a tolerância prevalecer acima da xenofobia, a compaixão acima do cinismo, de lagar mão da inveja, de colocar o altruísmo acima da ganância.

Sim Sim Sim. Eu sei. Blá blá blá.

Mas milagres existem. Todos os anos, os feriados de fim de ano são projetados para nos lembrar intencionalmente de que milagres realmente acontecem. Não toda hora, mas às vezes. Para nos lembrar de que podemos ter esperança e que podemos acreditar de novo, e mais importante, que nós mesmos podemos começar de novo. Podemos ter esperança de que seremos perdoados pelos nossos erros. Podemos esperar que o mundo, enfim, vai abrir os seus grandes braços para nós.

Acima de tudo, esperamos que, finalmente, poderemos apertar o grande botão Reiniciar e começar de novo, como se estivéssemos novos outra vez. O que torna esta época tão estressante é que precisamos tanto dessa última esperança, a de apertar o grande botão Reiniciar.

Esperamos que os maus padrões em nossas vidas irão suavizar, que nossos caminhos errados vão se endireitar, e que as mágoas do passado vão milagrosamente desaparecer. Esperamos tanto que nutrir a nossa gratidão no dia de Ação de Graças pode nos descentrar das muitas decepções que acalentamos durante o ano. Esperamos muito que no Natal o amor irá se espalhar abundantemente para nós, e sem qualquer tensão. Esperamos muito que cantar as lindas músicas típicas da temporada vai finalmente nos unir como um só povo. Esperamos muito que os presentes que daremos e receberemos irão abafar o desespero. Esperamos tanto que a nossa boa comida vai encher além de nossas barrigas, que irão nos preencher com bom ânimo. Esperamos tanto que apenas o fato de estarmos juntos vai criar em nós verdadeira boa vontade para com todos.

Mas o medo nos impede de ter esperança.

Assim como o medo de não ganharmos o prêmio no jogo do parque de diversões, temos medo de que a temporada de festas vai virar para outro lado e que o grande botão Reiniciar irá se revelar uma ilusão, que o milagre da esperança era só uma história que alguém inventou. Os nossos medos acabam com a esperança. E o grande botão Reiniciar desaparece na neblina.

Testemunhamos a chacina em Paris. Estamos horrorizados. Então decidimos que é justo fechar os nossos corações para todos os refugiados, apesar de sermos nós mesmos uma nação de refugiados. Sentimos que é justificável virar o nosso olhar para longe das caravanas das famílias que vemos na Europa, que se estendem para além do horizonte. Vemos esses refugiados também correndo com medo e com horror, todos eles também tentando, desesperadamente, apertar aquele mesmo botão de Reiniciar. Nós nos fechamos e decidimos que eles simplesmente não são como nós.

Vemos crimes horríveis de intolerância religiosa e assim nos sentimos justificados em também sermos intolerantes, justificados em entrarmos nessa temporada de fim de ano fechados com medos primordiais por nossa própria segurança. O medo nos faz entrar nas festas de fim de ano com nossos corações aprisionados no gelo. E por isso pensamos que a esperança não é real, e que os presentes que recebemos não vão derreter nossos corações gelados, e os presentes que damos nos deixam ocos e vazios.

Tememos que não seremos amados e, pior ainda, que não seremos capazes de amar. Tememos que nossas vidas, na verdade, não têm significado real, e que não existe nenhum botão Reiniciar, que o nosso único recurso, depois de limpar os detritos da falsa celebração, é retirar-se para um lugar cínico, protegido contra a decepção, endurecendo os nossos corações ao sofrimento dos outros. Temos medo de nos tornar Scrooge.

O que pode ser feito? Certa vez, ouvi o Dalai Lama dizer que a nossa única obrigação moral é aumentar a compaixão ao nosso redor. Se você olhar de perto, todas as tradições religiosas principais levam a mesma mensagem de amor, compaixão e perdão. Então aqui está o meu conselho. Tire algum tempo sozinho nesta temporada de férias. Faça duas coisas:

1) Faça uma lista de todas as pessoas que são importantes pra você nesse mundo. Pergunte a si mesmo: “O que é que eu posso fazer para que cada uma dessas pessoas se sinta mais amada agora?” Em seguida, realize todas essas coisas de sua lista.

2) Pense sobre o novo caminho que agora você vai tomar. Liste como esse novo caminho será diferente do caminho que você está atualmente. E agora, de verdade, aperte aquele grande botão Reiniciar.

Faça isso para que no próximo ano você possa olhar para trás e dizer: “Aquele 2015, ele foi o ano em que minha vida mudou para sempre, porque naquele ano eu finalmente apertei o grande botão Reiniciar. Naquele ano eu comecei realmente a amar”.

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