Entre o que somos e o que podemos ser

Por Samantha Sabel

Há pelo menos quinze anos nessa vida tenho tido contato com muitas ponderações conscienciais espiritualistas vindas de várias fontes. Essas ponderações me mantêm em saudável conexão com os altos ideais espirituais, aqueles a que todos devemos almejar em benefício próprio e para a melhoria coletiva da humanidade.

A espiritualidade me inspira a melhorar no dia a dia, motivando-me a viver com uma melhor consciência das coisas e a trabalhar com afinco sobre os defeitos que consigo identificar na minha própria personalidade. Personalidade no sentido dado por Aïvanhov, que na esteira de diversas tradições espirituais afirma que o homem possui uma natureza inferior, a personalidade – composta pelos níveis físico, astral e mental – e uma natureza superior, a que chama de individualidade, onde reside nossa latente sabedoria espiritual, composta dos níveis causal, búdico e átmico.

Não quero deixar dúvidas, portanto, de que considero a sabedoria espiritual o bem mais precioso que alguém pode carregar em sua consciência. Mas tenho sentido, ultimamente, que pode surgir uma armadilha psicológica quando compreendemos profundamente os altos ideais espirituais tão difundidos hoje em diversos meios. Essa armadilha é conhecida entre os buscadores sinceros e auto exigentes, que amam os ideais que estudam e que não toleram auto enganações; aqueles que estão empenhados em fazer a espiritualidade acontecer de verdade, para si, nos pequenos e grandes momentos da própria vida.

O melhor nome que consigo encontrar para tal armadilha é “opressão”. Sim, há vezes em que, de frente para a infinita distância que me separa do ideal que almejo para mim e para os outros, me sinto oprimida pela minha própria falibilidade. E a opressão, diferente da motivação, é um entrave: paralisa-nos, deixando-nos sentindo inadequados e incapazes, visto que enfatiza nossas dificuldades e aquilo que não conseguimos ainda ser nem alcançar. A opressão não é espiritualmente produtiva.

Um alto ideal pode, dessa forma, ser opressor. Melhor dizendo, uma consciência clara das próprias faltas somada a uma atitude sincera de busca dos altos ideais trazem no seu bojo o risco da opressão auto depreciativa.

O sentimento que deriva desse quadro, no meu caso particular, é o da tristeza. Fico triste e cansada quando entro nesse modo, constatando minha pequenez e não sabendo direito o que fazer com ela. É como se a consciência tocasse a região de beleza e perfeição que tanto admira, para em seguida se olhar no espelho e ver que vai demorar muito, mas muito tempo mesmo para chegar lá. E bate um desânimo com a própria lentidão e com a própria limitação frente às verdades espirituais que o coração já aceitou sinceramente.

As áreas para melhoria pessoal, do ponto de vista espiritual, são muitas. Existe uma forma espiritualmente ideal de se alimentar, de cuidar do corpo, de se emocionar, de pensar, de sentir, de se relacionar, de se manifestar, e por aí vai. Os degraus de aprendizado que precisamos galgar em cada uma dessas áreas são infinitos. A opressão perante tal vastidão é fruto da impaciência com os próprios erros, que repetimos inúmeras vezes, assim como da pressa em se chegar a pontos evolutivos vindouros que requerem ainda o acúmulo de mais experiência.

Os antídotos para esse modo subjugador parecem ser a paciência e a compreensão, não apenas para com os outros, mas também para consigo mesmo. Por outro lado, deve-se estar atento ao perigo da indulgência nociva, que leva à preguiça de melhorar. Então, como frequentemente se dá, a solução está no ajuste correto entre duas polaridades; nesse caso, os extremos da opressão e da idulgência.

Há que se ter também uma grande dose de amor, por si e pelos outros: estimar o pouco que já se conquistou e encarar a montanha que ainda falta pela frente de forma tenaz, porém tranquila.

Ajudou-me muito ouvir de um colega espiritualista, outro dia, o conselho de adotar a tática dos “passos de bebê”, alegrando-se com os pequenos feitos sem cair na armadilha da auto depreciação. E como esse simples insight me trouxe uma grande força apaziguadora, resolvi compartilhá-lo aqui, grafando essas palavras, esperando que possa ser também de alguma utilidade para outros buscadores.

3 thoughts on “Entre o que somos e o que podemos ser”

  1. Olá Samantha,
    Muito bom o seu texto…compartilho da mesma inquietude, muitas vezes me sinto oprimida pelos conhecimentos que conquistei…e me coloco em dúvida, será mesmo que vale a pena a busca pelo ideal?! Mas gosto da ideia de “passos de bebê”!!!

    Um forte abraço fraterno!!!
    Fabiana

  2. Que texto bom de ler, me identifiquei muito com tudo o que tu escreveu. E me fez refletir sobre essa tal “opressão”. (BINGO!)
    Ter consciência dessas armadilhas, nos fazem refletir sobre as nossas capacidades e ações!
    Obrigada, obrigada! Não deixemos de valorizar nossas conquistas e nossas qualidades, por mais que o caminho pareça árduo.
    Esse texto acalmou minha cabeça, meu coração é minha alma, fez com que eu percebesse que não sou a única com esses sentimentos que me impedem de conquistar cada vez mais coisas das quais sou completamente capaz, assim como todas as outras pessoas.
    Muito bom. Muito obrigada mesmo.

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