O que é ser espiritualista?

Por Samantha Sabel

Todo espiritualista sabe e procura viver segundo a máxima de que existe uma realidade além da matéria. Chame-se tal realidade de plano espiritual, energia, luz ou outro nome, o que está em jogo para o espiritualista é o exercício permanente da consciência de que aquilo que se apresenta diante dele, no dia a dia do plano físico, nada mais é do que uma capa que oculta uma realidade mais sutil, não imediatamente acessível aos sentidos físicos do ser humano.

A consciência da transitoriedade do material e da continuidade do espiritual é a grande força do espiritualista, que permite a ele alcançar regiões de liberdade, beleza e esperança, mesmo em momentos de grande provação.

O espiritualista maduro atingiu esta consciência por experiências pessoais cabais e intransferíveis, e, defensor da liberdade de juízo de cada um, não sente necessidade de convencer ateus, materialistas, agnósticos e céticos da existência desta outra realidade. Sabe que o momento de percepção de cada ser virá no seu devido tempo.

Preocupa-se mesmo é em continuar aprimorando o seu próprio espírito, pois uma vez revelada a ele esta outra realidade, percebe o quão pequeno é diante da vastidão do universo e da infinitude de experiências que, abertas à sua frente, convidam-no a evoluir sempre mais.

A capa material – nossos corpos e objetos do mundo físico – é, para o espiritualista, uma manifestação do mesmo princípio vital que anima os planos mais sutis. Ela não é exatamente ilusória, no sentido de que não cabe renegar o seu peso e a sua necessidade para os aprendizados evolutivos pelos quais precisamos passar. O que é ilusório, na verdade, é acreditar que a matéria se encerra em si mesma e permanecerá sempre igual; que nossa existência se resume ao que conhecemos hoje e que continuará a ser como é indefinidamente.

Claro que todos sabem, em tese, da impermanência das coisas materiais, mas também todos – materialistas e espiritualistas igualmente – com frequencia tomam atitudes e decisões prejudiciais à própria evolução, baseados na ilusão de que não há nada além da matéria e de que tudo sempre permanecerá como está. Por ignorância ou auto-enganação, não raro buscamos satisfações imediatistas que terão conseqüências físicas e espirituais negativas no médio ou longo prazo.

As fraquezas e vícios físicos, emocionais e mentais, auto e hetero destrutivos, são a grande chaga da humanidade. Sabendo disto, o espiritualista procura se conhecer para dominar, com progressiva maestria, a sua natureza inferior, aquela que, apesar das gratificações imediatas, fomentam o egoísmo, a separação e a destruição. Sabe, por consciência, que pode ser e fazer sempre melhor, e não toma esta certeza de forma leviana. Procura colocá-la em prática de verdade.

Seguindo o princípio da vigilância de si, busca conhecer suas próprias fraquezas, encará-las de frente e dominá-las, subjugando-as a uma natureza superior que também o habita: aquela que fomenta a união, o amor desinteressado e tudo que é engrandecedor e construtivo.

Tem consciência do tamanho dessa tarefa, nunca caindo no ridículo de achar que atingiu o ápice da própria evolução. Se entristece com as próprias quedas ou quando faz caírem consigo outros, mas não desiste de melhorar a si mesmo, procurando tirar lições dos erros cometidos, repará-los e seguir em frente, mais alerta e fortalecido.

Pode passar com mais leveza pelas provas e aproveitar melhor as bênçãos trazidas pela vida material, porque as vê como etapas necessárias de um plano maior e benevolente – embora não isento de reparações severas quando necessário – do qual conhece apenas uma pequena parte.

O espiritualista tem no olhar a capacidade de decantar a essência das coisas, reconhecendo aquilo que é eterno dentro daquilo que é transitório. Percebe que, do ponto de vista da matéria, mesmo a mais bela flor um dia fenecerá; enquanto que, do ponto de vista espiritual, a beleza dos objetos, seres e experiências emana de uma luz imperecível, que jamais pode ser apagada.

Você já experimentou as seis variedades de amor?

Por Roman Krznaric
Original em Inglês: Have You Tried the Six Varieties of Love?

A cultura do café dos dias de hoje tem um vocabulário incrivelmente sofisticado. Você quer um cappuccino, um espresso, um skinny latte ou talvez um iced caramel macchiato? Os Gregos antigos eram igualmente tão sofisticados na forma com que falavam sobre amor, reconhecendo seis diferentes variedades. Eles teriam ficado chocados com a nossa crueza em usar uma única palavra para sussurrar “eu te amo” num jantar à luz de velas e casualmente assinar um email com “muito amor”.

Então quais eram os seis amores conhecidos dos Gregos? E como eles podem nos inspirar a movermo-nos para além de nosso atual vício no amor romântico, que faz com que 94 por cento das pessoas jovens esperem – mas frequentemente fracassem – encontrar uma alma gêmea única que possa satisfazer todas as suas necessidades amorosas?

Eros: O primeiro tipo de amor era eros, nomeado por causa do deus Grego da fertilidade, e representava a ideia de paixão sexual e desejo. Mas os Gregos não pensavam nele como algo sempre positivo, como tendemos hoje. Na verdade, eros era visto como uma forma perigosa, ardente e irracional de amor que poderia dominar e possuir você – uma atitude compartilhada por muitos pensadores espirituais mais tardios, como o escritor Cristão C.S.Lewis. Eros envolvia uma perda de controle que assustava os Gregos. O que é estranho, porque perder o controle é precisamente o que muitas pessoas agora procuram em um relacionamento. Não esperamos, nós todos, apaixonar-nos “loucamente”?

Philia: A segunda variedade de amor era philia ou amizade, que os Gregos valorizavam muito mais do que a sexualidade baixa de eros. Philia abrangia a amizade camarada profunda que se desenvolvia entre irmãos em armas que haviam lutado lado a lado no campo de batalha. Tinha a ver com demonstrar lealdade aos seus amigos, sacrificando-se por eles, assim como dividir suas emoções com eles. (Uma outra forma de philia, às vezes denominada storge, incorporava o amor entre pais e seus filhos.) Todos podemos nos perguntar quanto deste amor philia camarada temos em nossas vidas. É uma questão importante em uma era em que tentamos acumular “amigos” no Facebook ou ‘seguidores’ no Twitter – conquistas que dificilmente teriam impressionado os Gregos.

Ludus: Esta era a ideia dos Gregos de amor divertido, que se referia à afeição divertida entre crianças ou jovens amantes. Todos tivemos um gosto dele no flerte e provocação nos estágios iniciais de um relacionamento. Mas também vivenciamos nosso ludus quando sentamos em roda em um bar contando piadas e rindo com amigos, ou quando saímos para dançar. Dançar com estranhos pode ser a mais fundamental atividade lúdica, quase um substituto divertido para o sexo em si. As normas sociais torcem o nariz para esse tipo de frivolidade adulta divertida, mas um pouco mais de ludus pode ser justamente o que precisamos para apimentar nossas vidas amorosas.

Agape: O quarto amor, e talvez o mais radical, era ágape ou amor abnegado. Este era um amor que você estendia a todas as pessoas, seja membros familiares ou estranhos distantes. Agape foi mais tarde traduzido para o Latim como caritas, que é a origem da nossa palavra caridade. Lewis referia-se a ele como “amor presente”, a mais alta forma de amor Cristão. Mas ele também aparece em outras tradições religiosas, como a ideia de mettā ou “bondade amorosa universal” no Budismo Theravāda. Há evidências crescentes de que agape está em perigoso declínio em muitos países. Níveis de empatia nos E.U.A. caíram quase 50 por cento ao longo dos últimos 40 anos, com a queda mais acentuada ocorrendo na década passada. Precisamos urgentemente renovar nossa capacidade de nos preocuparmos com estranhos.

Pragma: Outro amor Grego era pragma ou amor maduro. Este era o profundo entendimento que se desenvolvia entre casais de longo casamento. Tinha a ver com fazer acordos para ajudar o relacionamento a funcionar ao longo do tempo, e demonstrar paciência e tolerância. O psicanalista Erich Fromm disse que gastamos muita energia “caindo na paixão” e precisamos aprender mais como “ficar de pé no amor”. Pragma tem precisamente a ver com ficar de pé no amor – fazer um esforço para dar amor ao invés de apenas recebê-lo. Com as taxas de divórcio atualmente na casa dos 50 por cento, os Gregos certamente pensariam que deveríamos trazer uma dose séria de pragma para nossos relacionamentos.

Philautia: A variedade final de amor era philautia ou auto-amor. Os espertos Gregos perceberam que havia dois tipos. Um era uma variedade não saudável associada com narcisismo, onde você se tornava obcecado consigo, e focado em ganhar fama pessoal e fortuna. Uma versão mais saudável de philautia elevava a sua capacidade mais ampla de amar. A ideia era que se você gosta de si mesmo e se sente seguro em si mesmo, você terá amor suficiente para dar aos outros (hoje isto é refletido no conceito inspirado no Budismo de “auto-compaixão”). Ou como disse Aristóteles, “Todos os sentimentos amigáveis por outros são uma extensão dos sentimentos do homem por si mesmo”.

Então o que os Gregos estão realmente tentando nos dizer? De forma mais impressionante, eles encontraram diversos tipos de amor em relacionamentos com uma ampla gama de pessoas – amigos, família, esposas, estranhos e até mesmo com si mesmos. Isto contrasta com o nosso típico foco em uma única relação romântica, onde esperamos encontrar todos os diferentes amores empacotados em uma única pessoa ou alma gêmea. A mensagem dos Gregos é para alimentar as variedades de amor e conectar-se às suas muitas fontes. Não procure apenas eros, mas cultive philia passando mais tempo com velhos amigos, ou desenvolva o seu ludus dançando noite afora.

Ademais, deveríamos abandonar nossa obsessão com a perfeição. Não espere que seu parceiro lhe ofereça todas as variedades de amor, o tempo todo (sob o risco de você poder negligenciar um parceiro que falhar em atender aos seus desejos). Reconheça que um relacionamento pode começar com bastante eros e divertido ludus, e então evoluir rumo a incorporar mais pragma ou agape abnegado.

Há também o pensamento consolador de que se você sente a falta de um amante em sua vida, ao mapear a extensão na qual todos os seis amores estão presentes, você poderá descobrir que tem muito mais amor do que jamais imaginou.

É hora de introduzirmos as seis variedades de amor Grego em nosso vocabulário cotidiano. Desta forma nos tornaremos tão sofisticados na arte de amar como somos quando pedimos uma xícara de café.

Roman Krznaric é um pensador cultural Australiano e co-fundador da The School of Life em Londres. Este artigo é baseado no seu novo livro, How Should We Live? Great Ideas from the Past for Everyday Life (BlueBridge). www.romankrznaric.com