O verdadeiro respeito

Trecho do livro “A flauta nos lábios de Deus: o significado oculto dos evangelhos” (Osho)

Jesus diz:

Se alguém quer ser o primeiro, sera o último e servo de todos“.

Ele está simplesmente afirmando um fato: que aquele que compreendeu a feiura do ego, a feiura, a violência, o veneno da ambição – nessa compreensão tal indivíduo não competirá, ficará feliz onde estiver. E nessa felicidade, verá que Deus está em toda parte. E nessa experiência de Deus em toda parte, ele se tornará um servo.

Não que ele terá de praticar, não precisará buscar um lugar para onde ir ou como servir. Onde ele estiver, tudo é Deus, e o servo é a parte do todo. Não há um esforço deliberado para servir. O serviço vem quando você está em silêncio. O serviço flui de seu ser quando você está feliz, quando está tão pleno de energia que, ao surgir a necessidade, você serve.

Um cão está morrendo e você serve. Uma árvore está secando e ninguém lhe deu água; mas você lhe dá. E não finge nem se gaba de ter servido. Não sai clamando a todos: “Olhem que grande servo eu sou! Ajudei essa árvore a ficar verde de novo”. Não é essa a questão. Ao ajudar a árvore a ficar verde, você deixou sua própria vida verde também. É a recompensa, não há outra. Ao ajudar o cão moribundo, você ajudou a si próprio – porque tudo é um.

Quando você bate em alguém, está batendo em si mesmo. Quando mata alguém, está se matando – porque somos todos um. E quando você serve a si próprio, não há necessidade de se gabar. Você não se torna um grande missionário, um grande servo do povo, e coisas assim. Você não se torna ninguém, tudo ocorre naturalmente. Quando uma pessoa está feliz, sua compaixão é natural; por causa da felicidade, a pessoa é compassiva. […]

Observe uma flor, penetre fundo o coração da flor e tocará Cristo. E quando Cristo for tocado, aprofunde-se um pouco mais e tocará Deus.

Você pode tocar Deus em cada coração, em cada gota de água, em cada pedregulho, em cada pedra – Deus está em toda parte. E não se trata de ser o primeiro, e sim o último; é uma questão de se desprover do ego. Só assim você será capaz de respeitar uma criança, do contrário, respeitará um rei, não uma criança; respeitará um homem rico, não uma criança desamparada. Você alguma vez respeitou uma criança? Se não respeitou uma criança, não sabe como respeitar Cristo. Você dirá: “Para quê?”

Nós respeitamos as pessoas porque elas têm habilidades. Fulano é um grande pintor, e você o respeita. É um Picasso, e você o respeita. Por quê? Porque ele é famoso? Porque tem um ego muito famoso? Porque ele é alguém e você gostaria de ter uma ligação com ele? Esse homem é um grande músico, aquele é um grande poeta, aquele outro é um grande filósofo. Esse homem é um grande homem de Deus – um Cristo, um Buda. Você quer respeitá-lo porque gostaria de se aproximar dele. Se se aproximar dele, ficará satisteifo em seu ego. […]

Esse não é o respeito verdadeiro. O respeito verdadeiro não é pela fama, pelo nome; é algo totalmente diferente. Você respeita uma flor porque Deus está nela, plenamente vivo; respeita um pássaro porque Deus está nas asas dele; respeita uma criança porque nos olhos dela há inocência, os olhos dela são exatamente como os de Cristo. Você respeita os animais, as árvores, as pedras, porque Deus se oculta neles; a assinatura dele está em todo lugar.

Jesus Cristo

Bênçãos ocultas – Ramana Maharshi

Extraído e traduzido da página do Facebook dedicada a Ramana Maharshi

Pela maior parte do dia Sri Bhagavan Ramana Maharshi costumava sentar-se no seu sofá, que ficava ao lado da janela. Esquilos ocasionalmente entravam pela janela e corriam em seu entorno, perto dele. Sri Bhagavan frequentemente respondia a eles alimentando-os com castanhas ou comidas pelas suas próprias mãos.

Um dia Sri Bhagavan estava alimentando os esquilos quando um devoto muçulmano, que o estivera observando, entregou-lhe uma nota em que estava escrito: “Os esquilos são muito sortudos porque estão recebendo comida de suas próprias mãos. Sua graça é tanta para eles. Sentimos inveja dos esquilos e que também deveríamos ter nascido esquilos. Isto teria sido muito bom para nós.”

Sri Bhagavan não pôde conter a risada ao ler esta nota.

Ele disse ao homem: “Como você sabe que a graça não está com você também?” E então, para ilustrar este ponto, começou a contar uma longa história.

“Um santo tinha o siddhi (poder sobrenatural) da profecia. Ou seja, o que quer que ele dissesse tornava-se verdade. A qualquer cidade que fosse, as pessoas locais vinham até ele para ter a sua visão e obter suas bênçãos. O santo, que também era cheio de compaixão, removia a infelicidade das pessoas abençoando-as. Porque suas palavras sempre se tornavam verdade, as bênçãos sempre surtiam efeito. Por isso se tornou tão popular.

Durante suas peregrinações ele chegou a uma cidade na qual, como de costume, muitas pessoas se dirigiram a ele para obter suas bênçãos. Entre os buscadores de bênçãos estava um ladrão. Ele foi ter a visão do santo à noite e pediu suas bênçãos. Quando o santo o abençoou, o ladrão ficou muito feliz. Ele tinha certeza de que, por causa destas bênçãos, quando ele saísse para roubar à noite, ele teria sucesso. Mas o resultado foi outro. Sempre que tentava arrombar uma casa, uma pessoa ou outra daquela casa acordava e ele tinha de fugir correndo. Ele tentou em três ou quatro lugares e não teve sucesso em nenhum. Por causa de sua derrota, o ladrão ficou furioso com o santo.

Cedo na manhã seguinte ele voltou ao santo e disse com raiva: ‘Você é um impostor! Você está dando falsas bênçãos às pessoas.’ O santo muito pacificamente perguntou a razão de sua ira. Em resposta, o ladrão narrou em detalhes o quão infeliz tinha sido em suas tentativas de roubar na noite anterior.

‘Tendo ouvido esta história’- disse o santo – ‘neste caso, as bênçãos surtiram efeito.’
‘Como?’ perguntou o ladrão, estupefato.
‘Irmão, primeiro me diga: ser um ladrão é um trabalho bom ou mau?’
‘É mau’, admitiu o ladrão, mas então se defendeu dizendo ‘mas o que faço com o estômago que preciso alimentar?’

O santo continuou com sua explicação: ‘Não ter sucesso num trabalho mau significa que as bênçãos realmente deram frutos. Há tantas outras maneiras de alimentar o estômago. Você deveria aceitar qualquer uma delas. Para chegar a esta conclusão foi necessário que você falhasse no seu trabalho de ladrão.’

O ladrão compreendeu e informou ao santo que no futuro ele iria ocupar-se de um outro trabalho, honesto. Ele prostrou-se diante do santo e saiu.”

Tendo narrado a história acima, Sri Bhagavan perguntou ao devoto muçulmano: “Você quer dizer que se tudo for conforme os seus desejos, só então é possível dizer que a graça de um santo funcionou?”

“Não entendo”, respondeu o devoto.

Sri Bhagavan explicou em mais detalhe: “As bênçãos de um santo operam um trabalho purificador na vida. Estas bênçãos não podem aumentar a impureza. Aquele cujo entendimento é limitado pedirá bênçãos para que ele possa satisfazer certos desejos, mas se os desejos são tais que a sua satisfação fará o buscador mais impuro ao invés de mais puro, as bênçãos do santo não o permitirão satisfazer os desejos. Desta forma, o buscador é salvo de impurezas maiores. Neste caso, não são as bênçãos do santo um presente de compaixão?”

O devoto muçulmano finalmente compreendeu e satisfez-se com estas palavras.

Ramana Maharshi esquilo